A RODA DE LEITURA ROSEANA MURRAY RODA EM SUA 13ª. EDIÇÃO
Prof. Dr. Latuf Isaias Mucci
Depois de um breve interregno, devido à viagem à Espanha, aonde Roseana Murray fora conhecer seu primeiro neto, Luís, nascido em Granada, a Roda de Leitura voltou a girar, dia 23 de outubro do ano em curso, contando, então, com a presença, além dos professores e alunos das escolas municipais “Padre Manuel” (Bacaxá), “Elaine de Oliveira Coutinho” (Água Branca) e “Luciana Santa Coutinho” (Porto da Roça), com convidados especiais: a Profa. Rosângela Sivelli de Miranda, da Escola Municipal Barão Homem de Melo (Vila Isabel, Rio de Janeiro) e de professoras da Secretaria de Educação de São Gonçalo-RJ. Como em todas as edições, a Secretaria de Educação de Saquarema – promotora do evento, no que tange à convocação das Escolas, não arcando com as despesas de fotocópias e lanches, que ficam por conta da Anfitriã – fez-se presente pela Profa. Dodora e pelo Prof. Valdinei. Quem tem acesso às numerosas fotos tiradas da Roda dá-se conta da magnitude do encontro literário, que vai, a cada edição, retomando novos fôlegos e agregando mais pessoas, entusiasmadas com o projeto e sua ímpar realização. De fato, apenas Saquarema, e agora, Paraty, a partir do conhecimento do que se faz aqui, tem, em suas escolas municipais, uma “Roda de leitura”, que consta na grade curricular, com sala própria e não implicando provas, exames, notas. A iniciativa nasceu da proposta de Roseana Murray e das rodas de leitura, que têm acontecido, regularmente, em sua casa.
Pela primeira vez, Roseana manteve escancarados os portões de sua mansão a fim de, segundo ela, nos fazerem ver, o tempo todo, o mar e seu horizonte de ondas; também a música marítima nos chegava mais forte e acolhedora.
É fundamental a preparação da Roda de Leitura, quando Roseana escolhe os textos a serem lidos e comentados, bem como os acepipes a serem servidos aos convivas literários. Qual seria o conto desta 13ª. Roda de Leitura? Sempre sugiro um conto brasileiro e como já nos tínhamos debruçado sobre Machado de Assis (1839-1908), Cecília Meireles (1901-1964) e Clarice Lispector (1920-1977), indiquei Mário de Andrade (1893-1945), cujo conto “O peru de Natal” é absolutamente arrebatador.
Como de costume, Roseana Murray tomou um jornal para inaugurar aquela Roda, mas, ao invés de ler notícias sobre a leitura, apresentou um texto de Herta Muller, nascida na Romênia, de nacionalidade alemã, desconhecida do grande público e dos especialistas, embora ganhadora, este ano, do prêmio Nobel de Literatura , por "com a densidade da sua poesia e a franqueza da sua prosa, retratar o universo dos desapossados". Com tradução de Ingrid de Freitas, o texto, que mistura lirismo e imagnes de um estupendo surrealismo, “Varredores de rua” não pode classificar-se como conto, tendo, sobretudo, traços de poema em prosa: “(...) Caminho atrás de mim, caio fora de mim sobre as margens de minhas imaginações. O parque late ao meu lado. As corujas comem os beijos que ficaram sobre os bancos. As corujas não dão por minha presença. Os cansados e estafados sonhos acocoram-se nos arbustos. As vassouras varrem-me as costas porque me apoio muito na noite. Os varredores de rua varrem as estrelas formando uma pilha, varrem-nas sobre suas pás e as esvaziam no canal. (...) Agora, todos os varredores falam e misturam todas as ruas. Caminho através de seus gritos, através da espuma de seus chamados e quebro e caio na profundidade das significações. Dou passos grandes. Arranco minhas pernas com o andar. O caminho foi varrido para longe. As vassouras caem sobre mim. Tudo dá voltas sobre si. A cidade erra sobre o campo, para algum lugar”. À leitura, os presentes, extasiados com a poesia, foram fazendo conexões com outros textos, como “Tecendo a manhã”, do pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e Manu, romance do alemão Michael Ende (1929-1995). Todo professor representa um varredor de rua, na medida em que faz a linguagem sair do seu lugar e, nesse processo metonímico, leva os alunos a repensarem seu lugar, tanto na linguagem quanto no próprio mundo. No poema-em-prosa não há um centro, dado que as palavras-vassouras movem-se, removem as estrelas e encontram vestígios de beijos, roubados ou não. Com sua sedutora fragmentação, o texto de Herta Muller convoca seu leitor a recompor um todo, um todo móvel e comovente. As metáforas do texto criam uma atmosfera onírica, que envolve cada um de nós, errantes. Lembrei-me de um poema “O varredor”, lido em minha remotíssima infância, e que era da autoria de Dom Marcos Barbosa (1915-1997), monge beneditino mineiro, tradutor de O pequeno príncipe: “Varredor, que varres a tua/ tu varres o reino de Deus”.
Antes da leitura do conto, Roseana solicitou que eu fizesse breve apresentação de Mário de Andrade, de cuja obra me ocupo desde 2000, quando, na USP, desenvolvi pesquisa de pós-doutoramento em letras clássicas e vernáculas. Falei do autor de Macunaíma (1928) como se fala de uma pessoa a quem se ama muito e que se admira imensamente. Junto com a maresia, eu respirava e exalava alegria ao tratar, em rápidos traços, daquele que foi o protagonista da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, em fevereiro de 1922; artista de 1001 instrumentos, que executou com excelência, Mário de Andrade emblema, para mim, o brasileiro, eruditíssimo e ligado às raízes populares, atento à sua nacionalidade e ao seu comprometimento para com um Brasil mais humano e mais digno dos brasileiros.
Considerado um conto-paradigma na literatura de língua portuguesa, o conto O peru de Natal foi lido como uma performance por Roseana Murray, que parecia uma atriz em um palco frente ao mar. Todos ríamos muito do humor, fino e cáustico, que impregna o texto todo, mas nenhuma gargalhada era mais gostosa do que a do Juan, nosso anfitrião, espanhol de nascimento, mas saquaremense de iure et de facto; com meus botões, eu me perguntava de como um espanhol poderia usufruir tão intensamente um texto, tramado em português lapidar. Jornalista internacional e escritor de vários best-sellers, Juan Arias terá algum parentesco com Mário de Andrade, também jornalista, por profissão. Juan dizia que o humor daquele conto não é óbvio, mas tem uma genial sutileza e uma saborosa sabedoria. A certa altura do gostosíssimo conto, por exemplo, Juca, o filho festivo, narra: “Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal (...). Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno de Jesusinho nascido”.
Se texto puxa texto, conto puxa conto e vários dos participantes da Roda relembraram suas cenas de ceia de Natal em família. Roseana chamou a atenção para um elo entre o primeiro texto e o conto: lá, como cá, escreve-se em tempos de ditadura e o pai cinzento do conto pode figurar o ditador do regime comunista da Romênia: são milagres da ficção literária que faz com que textos se encontrem e se enlacem, abolindo fronteiras de tempo e espaço. Como pó, as palavras flutuam e vão pousar numa página em branco qualquer, que algum leitor – sabe-se lá onde e quando – há-de manusear. Considerado o louco da família, uma espécie de “menino maluquinho”, fiz notar que o narrador do conto remete ao próprio Mário de Andrade que, certa vez, foi taxado de louco pela família, pelo fato de ter comprado por um preço caríssimo a cabeça de um Cristo com trancinhas (um rastafári), esculpida pelo paulista Victor Brecheret (1894-1955); a partir do xingamento familiar, Mário pôde usufruir de sua condição de louco varrido. Na coleção particular de Mário de Andrade, conservada no IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), da USP, pode-se contemplar esse Cristo-Bob Marley. Até porque o conto é bastante cênico, alguns participantes mencionaram filmes famosos, como A festa de Babete, dirigido, em 1987, pelo dinamarquês Gabriel Axel, baseado no romance homônimo de Izac Dinesen e Chocolate (2000), de Lasse Hallstrom. Falei de um outro conto, que tematiza uma festa em família – Festa de aniversário -, de Clarice Lispector; mas, contrariamente à alegria exuberante de “O peru de Natal”, o conto que trata do 85º. aniversário da matriarca tem tons nitidamente sombrios, lúgubres, céticos: a ironia demolidora de Clarice contrasta com a ironia inaugural de Mário de Andrade, que tem “felicidade clandestina”, “felicidade nova”, “felicidade maiúscula”.
Com tanto gosto pelo texto, passamos à farta mesa, onde protagonizavam bolos e pães recheados, feitos frescamente por Roseana, que sempre declara gostar mais de cozinhar do que de escrever. Mas, em sua cozinha, face ao Atlântico, ela também elabora poemas que rodam o mundo e fazem girar corações e mentes.
Será a Roda de Leitura um grande poema, composto por inúmeras e anônimas mãos.
sábado, 31 de outubro de 2009
GABRIEL LATUF, O PRÍNCIPE ANIVERSARIANTE
Gabriel, ou Gael, completa, hoje, três anos de pura felicidade e grandes travessuras. Saímos para comprar-lhe um par de tênis. No carro, em direção ao "Shopping", ele, subitamente, tomou minha mão direita e a beijou.
AD PERPETUAM REI MEMORIAM
meu querido mestre,
li, embevecido, seu resumo.
gosto do seu texto.
amo o seu discurso.
admiro o seu poder de síntese.
fico embasbacado com a sua erudição...
está perfeito...
Joel Cardoso/UFPA
li, embevecido, seu resumo.
gosto do seu texto.
amo o seu discurso.
admiro o seu poder de síntese.
fico embasbacado com a sua erudição...
está perfeito...
Joel Cardoso/UFPA
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
PALÍNDROMO/TAUTOLOGIA
SABE O QUE É UM PALÍNDROMO? NÃO?! Um palíndromo é uma palavra ou um número que se lê da mesma maneira nos dois sentidos, normalmente, da esquerda para a direita e ao contrário.
Exemplos:
OVO, OSSO, RADAR.
O mesmo se aplica às frases, embora a coincidência seja tanto mais difícil de conseguir quanto maior a frase;
é o caso do conhecido:
SOCORRAM-ME, SUBI NO ONIBUS EM MARROCOS.
Diante do interesse pelo assunto (confesse, já leu a frase ao contrário), tomei a liberdade de seleccionar alguns dos melhores palíndromos da língua de Camões... Se souber de algum, acrescente e passe adiante.
ANOTARAM A DATA DA MARATONA
ASSIM A AIA IA A MISSA
A DIVA EM ARGEL ALEGRA-ME A VIDA
A DROGA DA GORDA
A MALA NADA NA LAMA
A TORRE DA DERROTA
LUZA ROCELINA, A NAMORADA DO MANUEL, LEU NA MODA DA ROMANA:
ANIL É COR AZUL
O CÉU SUECO
O GALO AMA O LAGO
O LOBO AMA O BOLO
O ROMANO ACATA AMORES A DAMAS AMADAS E ROMA ATACA O NAMORO
RIR, O BREVE VERBO RIR
A CARA RAJADA DA JARARACA
SAIRAM O TIO E OITO MARIAS
ZÉ DE LIMA RUA LAURA MIL E DEZ PROFUUUUUUNDO!
ISSO É QUE É CULTURA!!!!
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Sabem o que é TAUTOLOGIA?
É o termo usado para definir um dos vícios de linguagem.
Consiste na repetição de uma ideia, de maneira viciada, com palavras diferentes, mas com o mesmo sentido.
O exemplo clássico é o famoso 'subir para cima' ou o 'descer para baixo'.
Mas há outros, como pode ver na lista a seguir :
- elo de ligação
- acabamento final
- certeza absoluta
- quantia exacta
- nos dias 8, 9 e 10, inclusive
- juntamente com
- expressamente proibido
- em duas metades iguais
- sintomas indicativos
- há anos atrás
- vereador da cidade
- outra alternativa
- detalhes minuciosos
- a razão é porque
- anexo junto à carta
- de sua livre escolha
- superávit positivo
- todos foram unânimes
- conviver junto
- facto real
- encarar de frente
- multidão de pessoas
- amanhecer o dia
- criação nova
- retornar de novo
- empréstimo temporário
- surpresa inesperada
- escolha opcional
- planear antecipadamente
- abertura inaugural
- continua a permanecer
- a última versão definitiva
- possivelmente poderá ocorrer
- comparecer em pessoa
- gritar bem alto
- propriedade característica
- demasiadamente excessivo
- a seu critério pessoal
- exceder em muito
Note que todas essas repetições são dispensáveis.
Por exemplo, 'surpresa inesperada'.
Fique atento às expressões que utiliza no seu dia-a-dia.
Exemplos:
OVO, OSSO, RADAR.
O mesmo se aplica às frases, embora a coincidência seja tanto mais difícil de conseguir quanto maior a frase;
é o caso do conhecido:
SOCORRAM-ME, SUBI NO ONIBUS EM MARROCOS.
Diante do interesse pelo assunto (confesse, já leu a frase ao contrário), tomei a liberdade de seleccionar alguns dos melhores palíndromos da língua de Camões... Se souber de algum, acrescente e passe adiante.
ANOTARAM A DATA DA MARATONA
ASSIM A AIA IA A MISSA
A DIVA EM ARGEL ALEGRA-ME A VIDA
A DROGA DA GORDA
A MALA NADA NA LAMA
A TORRE DA DERROTA
LUZA ROCELINA, A NAMORADA DO MANUEL, LEU NA MODA DA ROMANA:
ANIL É COR AZUL
O CÉU SUECO
O GALO AMA O LAGO
O LOBO AMA O BOLO
O ROMANO ACATA AMORES A DAMAS AMADAS E ROMA ATACA O NAMORO
RIR, O BREVE VERBO RIR
A CARA RAJADA DA JARARACA
SAIRAM O TIO E OITO MARIAS
ZÉ DE LIMA RUA LAURA MIL E DEZ PROFUUUUUUNDO!
ISSO É QUE É CULTURA!!!!
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Sabem o que é TAUTOLOGIA?
É o termo usado para definir um dos vícios de linguagem.
Consiste na repetição de uma ideia, de maneira viciada, com palavras diferentes, mas com o mesmo sentido.
O exemplo clássico é o famoso 'subir para cima' ou o 'descer para baixo'.
Mas há outros, como pode ver na lista a seguir :
- elo de ligação
- acabamento final
- certeza absoluta
- quantia exacta
- nos dias 8, 9 e 10, inclusive
- juntamente com
- expressamente proibido
- em duas metades iguais
- sintomas indicativos
- há anos atrás
- vereador da cidade
- outra alternativa
- detalhes minuciosos
- a razão é porque
- anexo junto à carta
- de sua livre escolha
- superávit positivo
- todos foram unânimes
- conviver junto
- facto real
- encarar de frente
- multidão de pessoas
- amanhecer o dia
- criação nova
- retornar de novo
- empréstimo temporário
- surpresa inesperada
- escolha opcional
- planear antecipadamente
- abertura inaugural
- continua a permanecer
- a última versão definitiva
- possivelmente poderá ocorrer
- comparecer em pessoa
- gritar bem alto
- propriedade característica
- demasiadamente excessivo
- a seu critério pessoal
- exceder em muito
Note que todas essas repetições são dispensáveis.
Por exemplo, 'surpresa inesperada'.
Fique atento às expressões que utiliza no seu dia-a-dia.
ASSIM FALOU DRUMMOND
Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.
Procura da Poesia, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
"Inconstância", FLORBELA ESPANCA
Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!
Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...
E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também... nem eu sei quando...
Pedi à vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!
Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...
E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também... nem eu sei quando...
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