quarta-feira, 11 de março de 2009

PATERFAMILIAS

Do meu pai, falecido quando eu tinha apenas um ano de idade, tenho, além de uma saudade infinita, poucas lembranças físicas, entre as quais um cobertor rosa de pura lã, que carrego desde que a mamãe mo ofertou como signo de uma paternidade jamais esquecida. Ontem, em pleno verão saquaremense, senti, quando fui dormir, um certo arrepio de frio e busquei, então, o cobertor paterno, com que me cobri, depois de ter feito uma prece ao papai, lembrando, sempre, os conselhos de minha Cláudia, que me ensinou a homenageá-lo. Adormeci tranqüilamente e sonhei.
Sonhei que papai não havia morrido e que mamãe forjara aquela tragédia toda para evitar a humilhação de ter sido abandonada por ele, seu primeiro, único e absoluto amor. Depois de uma longuíssima ausência, papai voltara e eu estava louco para, enfim, conhecê-lo; esperei-o deitado. Quando ele surgiu à porta do meu quarto, saltei em seus braços, chorando copiosamente; ele me disse: “como você é bonito!” Reparei bem nele, achei-o lindo e notei que era exatamente como mamãe sempre o descrevera, com olhos verdes, como minha irmã Martha, e com cabelos de um tom avermelhado, como os que tinha, antes de tingi-los de preto, o primogênito Jorge. Embora não fosse alto, era um libanês altivo e de uma elegância ímpar. Perguntei-lhe por que havia sumido, deixando uma esposa grávida e quatro filhos. Ele disse que não agüentava a ingerência de minha avó materna (e eu pensava o quanto minha vó Clara era, sempre, discreta e singela...); contou-me que arrumou, no Líbano, outra mulher, que sabia de todas as minhas andanças, durante dez anos, pela Europa, e que meu irmão Mucci estava a par de tudo; então compreendi a calma desse meu irmão com relação aos problemas familiares.
No auge da minha alegria, dancei para papai, que me sorria como a tia Laia, incentivadora de minha euforia dançarina.
Quando acordei, estava eu totalmente abraçado ao cobertor rosa de pura lã e me lembrei de que estou relendo O retrato de Dorian Gray, romance de Oscar Wilde, onde há uma passagem que me agrada muitíssimo, quando um dos personagens diz, textualmente: “Eu gostaria de escrever um romance, mas um romance que fosse tão adorável quanto um tapete da Pérsia e também irreal”. Por uma noite, meu cobertor rosa de pura lã foi um tapete libanês.

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